terça-feira, 31 de julho de 2012

Tovacuçu

Domingos Martins, terra charmosa...
abriga tovacuçu, ave maravilhosa
-zelosa com o ninho, mãe orgulhosa...
Nem tudo, porém, romantismo...
Árdua sua luta, a sobrevivência...
Pesquisa vaga, a ciência...
Vaga insensível, a consciência...
Abre a floresta, o consumismo... 

Acrobata

Na copa das cabucras, nos cocais,
ou no Jequitinhonha, nas Gerais,
voavam acrobatas sensacionais...
Mestres em escaladas negativas,
desafiavam a força gravitacional...
Capturavam seu petisco animal,
mediante movimento inconvencional...
Nas cabrucas extinguidas

Caboclinho-do-sertão

Tão difíceis de serem avistados...
Nos campos abertos, caçados...
Dos pântanos e cerrados, expulsados...
É o caboclinho, tão raro, sensível...
Pássaros que fácil se magoam,
se pertubados, revoam,
já capturados, não voam...
deixando tristeza terrível!

Arapaçu-barrado

Cadê, do arapaçu, várzea e capoeira?
As folhas de açaí que ele forrageia,
o lagarto que ele saboreia?
As cavidades para nidificar,
cadê sua várzea de folha viva?
E sua Amazõnia rediviva,
sua espécie respeitada, altiva?
...Sua canção alegradora ao ar? 

terça-feira, 17 de julho de 2012

Tatac

O materialimo, a especulação,
a mão humana de destruição,
silenciou uma bela canção
do Nordeste, do Tatac...
Nas moitas, no capim,
nas folhas do aipim,
aos pares, feliz, enfim...
Não vê-lo assim é um baque!

Cebito

Lá em Noronha,
a pequena ave tristonha,
paz e sosseguidão sonha...
Onde se protege espécies do mar,
se altera a mata do Cebito,
cometendo-se grave delito:
ele é precioso e bonito,
e desejara ser peixe do mar...

Lenheiro

Atravanca-lhe a vida, o vira-bosta:
bota ovos no ninho alheio, o besta...
E na bondade do lenheiro se encosta...
Mas isso é mera curiosidade...
O que vale é o poema gritar:
-os inços estão a queimar,
pecuaristas no campo a "limpar"...
E isso é uma calamidade!

Andarilho

Vai o pássaro viajando...
Andarilho incansável, vai voando...
Atrás de cerrado, caminhando...
Se é controlada, a queimada,
o pássaro enche a pança,
e o insetinho dança...
Mas não equilibra essa balança:
queimada controlada, que nada!

Tiriba

A mata de galeria deixou nem rastro:
toda convertida em pasto!
Sucumbe a semente do metastro,
o tiriba, e seu doce lar...
Extrai-se aroeira e ipê,
convertem em pastagens, que
terminam em soja e dendê
E o tiriba, sem onde pousar...

Jacu-de-barriga-castanha

Ipês floridos encantadores...
Traziam jacus comedores
de seus frutos e flores...
Do jacu temos pouca notícia
-sua presença em áreas de conservação,
consola nossalma e coração,
mas invadiram a área de preservação...
Um caso de polícia!

Apuim-de-costas-pretas

Que penoso esse poema,
descrever o apuim, um problema,
pouco se sabe dele, pena...
Como seria sua vocalização,
seu hábito, sua biologia...
Do manual de ornitologia:
discreto e raro: o que se sabia...
O apuim exige imaginação...

Corredor-crestudo

Nome estranho, corredor-crestudo...
De apetite bom, come de tudo:
das minhocas ao bicho cascudo
Nas savanas de árvores espinhentas,
passando por maus bocados...
Em biomas mui fragmentados,
os insetos com venenos borrifados...
E as ações de proteção, lentas...

Tietê-de-coroa

Seu canto é alto e desagradável...
Será mesmo, se tudo é admirável
nessa criaturinha amável:
pássaro tietê-de-coroa...
8 cm desfilando nas capoeiras,
pequeno e discreto nas goiabeiras,
atrás dos gafanhotos nas mangueiras...
O sumido tietê-de-coroa...

Pica-pau-de-coleira-do-sudeste

De novo a Mata Atlântica alterada,
e sua baixada desmatada,
de novo, na motoserra serrada...
O pica-pau, só no desenho é animado...
Sua alta e conspícua vocalização,
júbilo traz ao nosso coração,
cadê, da manhã, bela canção?
E o pica-pau, na real, desanimado...

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Jacu-estalo

Nos relógios de parede, os cucos brincam...
Nas matas das baixadas, nem mais habitam...
Ninhos alheios, já nem parasitam...
O cuco era assim: cantador e solitário,
imitava do porco-do-mato, o brado,
e se alimentava de pequeno vertebrado...
E tudo é triste, porque é lembrado
como o cuco do relógio, de canto otário...

Rabo-amarelo

Outro que me provoca pranto...
Endêmico do bonito Espírito Santo,
em dueto e alto, seu canto...
Na Mata Atlântica segmentada, 
sobrevivem isolados, esparsos,
em fragmentos de espaços,
driblando os cangaços...
-na Mata Atlântica silenciada...

Beija-flor-das-costas-amarelas

Se uma ave se extingue, diferença faz...
Na natureza, a sua ausência traz
fim das relações com as espécies, aliás,
o pequenino beija-flor,
não é objeto de ornamentação...
Ajuda as bromélias na polinização...
Cada pássaro com sua missão,
e cada flor com seu beija-flor...

Ararinha-azul

Ganhou Comitê de Defesa
-tentam reintegrá-la à natureza,
ararinha azul de gran' beleza!
Na caatinga não é mais vista...
Foi o fogo, o sobrepastoreio,
foi a barragem, o carvoeiro...
Foi a tristeza do cativeiro,
foi nosso vício de conquista...

Arara-azul-pequena

Seu colorido, nunca mais...
Sua música, nunca mais...
Seu voo e graça, nunca mais...
A extinção e suas consequências,
 ainda não avaliadas...
Dos palmares expulsadas
e nunca mais avistadas...
Nunca mais paz nas consciências!

Vira-folha-pardo-do-nordeste

Pista quase nenhuma,
nem foto alguma,
nem pesquisa, em suma,
desse táxon ameaçado...
A fragmentação florestal,
junto com a tensão social,
ao Sul da Bahia, litoral,
deixaram-no geneticamente isolado...
 

Cara-dourada

As águas para a irrigação,
as árvores para o carvão,
o fogo para as áreas de preservação...
Ameaçam a vida desse passarinho
do Velho Chico, também castigado...
O arvoredo, serrado do Cerrado,
tiram do cara-dourada, coitado,
os insetos que abasteceriam seu ninho...

Albatroz-de-sobrancelha

Desperta admiração em nós:
branco, de asas negras, o albatroz...
Mergulha fundo e veloz...
Barcos que pescam atum,
capturam a ave, acidentalmente...
Morde a ave, ingenuamente,
anzóis içados, lamentavelmente...
Sobrando albatroz nenhum

Papagaio-do-peito-roxo

Pobre animal, hoje de estimação...
Papagaio triste, sem seu pinhão...
Sua mata araucária, em supressão...
Aprisionado em casa: mudinho !
Suas vocalizações, saudades...
Em bandos alegres, saudades...
Penas arco-íris, saudades...
Às vezes, carne de caça, tadinho !

Ararajuba

Ararajuba da plumagem amarela,
paga alto preço por ser bela,
a cobiça humana não desgarra dela...
A árvore era seu dormitório...
Ararajuba do circo, do zoo,
cada vez mais raso, seu voo...
No poema delator eu vou...
brigar pelo seu território!

Arara-azul-grande

Exuberante ararona azul...
que ocorria do Mato Grosso do Sul,
até o Amazonas do céu azul...
É preciso envolver as comunidades locais
-vem minguando sua população,
da arara da rara reprodução...
Colheram os cocos da sua refeição
e deram suas penas aos cocais...

Choró-da-mata

Pássaro da úmida mata,
 cor da noite sem lua de prata,
o singelo poema lhe retrata...
Sua sorte, por ser tão pequenino,
é não ter valor comercial...
O azar: não ter plano habitacional...
A lavoura removeu o dossel florestal,
desse delicado menino...

Pintor-mirim


Pintor- mirim, pássaro-pintor:
o poema será seu tutor,
ó pintura magistral do Criador...
 Ontem voavas no céu  nordestino,
hoje vegetas no viveiro,
ou na feira do moambeiro,
traficado ao mundo inteiro...
Salvemo-lo do triste destino!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

POEMAS SOBRE O HOMEM DA CAMISA AMARELA

Um desses sujeitos quase invisível
-eu o vejo da minha janela
E o burguês do olhar desprezível
ao homem da camisa amarela
A mancha na blusa, irremovível
na cor que nem sei mais aquela
Camelô dos devedês pirateados,
brasileiro dos direitos usurpados!

Apresentando melhor o homem da camisa amarela

Então, o homem da camisa amarela
-entre a Padre Júlio e a São José,
preso na cidade, grande cela,
ganha ou perde a vida, miserável é
Só tem uma camisa (que cor aquela?)
Só tem um chinelo, grandão no pé
Deus sabe como ele se alimenta
Eu já memorizei a sua vestimenta

Impressiona-me o homem da camisa amarela


Há pessoas que vivem da brisa que Deus dá
E são mais felizes que o rico ainda
Ele ri, mostrando dentes que não há
Conta piada, festeja a vida (linda?)
Sem lenço, documento, alvará
será que teme a alvorada vinda?
Criatura destituída de oportunidade...
Tem muito homem da camisa amarela na cidade...

O homem da camisa amarela não veio trabalhar hoje

Procurei por ele e não o vi
-o homem da camisa da cor já sabida
Estaria doente? Compaixão senti
Cambalido da mortadela vencida?
Oraria por ele, decidi
Pela sua desesperança vencida
Que volte amanhã. a camisa desbotada
Que rompa a eternidade, a lua prateada

O homem da camisa amarela veio trabalhar hoje e ganhou um nome

Lá vem o brasileiro a batalhar pelo osso
que dará gosto a sopa, na verdade, caldo
Grossas rugas sob um rosto moço...
Octo-versos incidirão em laudo
Um lagarto, no fundo dum poço,
recebe mais ajuda que o Reinaldo
Assim eu nomeei, o homem da camisa amarela
Ele sobreviveu ao SUS, e a uma erisipela

Reinaldo, o homem da camisa amarela

Reinaldo, porque é rei, não do gado
Rei da rua, rei do ponto, rei da luta
A cidade com seus nãos é seu reinado
O cargo do Naldo, ninguém disputa
Ele vende bagulho: chinês clonado
E seu almoço é uma verde fruta
Criatura que se vê, mas não se enxerga
A fome o definha, e o vento o verga

É o Reinaldo, o homem da camisa amarela, nos ensinando...

A vida é simples, a gente é que complica
Pra que tanta roupa, bolsa, sapato?
O homem da camisa amarela nos indica
que poupar a natureza é belo ato
Devolveríamos a aguinha branca à bica
e a proteína do inseto ao gato
Lavando a blusa a noite pra usar ao dia
De dia pra usar a noite, lavaria

A mulher da banca das calcinhas também me comove

No coração da cidade, bairro Central,
bomba o camelódromo na calçada...
Chama-me a atenção um rosto não angelical...
Nunca vi uma mulher tão desencantada...
É o povo angustiado, meu jogral,
é a face da nossa gente ocultada...
Brutal é a fome, fraca é a venda
-comprarei da sua calcinha sem renda

Porque o homem da camisa amarela e a mulher da banca das calcinhas me comovem

Ele, alto astral, barulhento, conversador
Ela, a mulher mais triste que já vi
Ambos humanos, sentem fome e calor
Ela me faz chorar, porque nunca ri
Ele também, porque disfarça a dor
Eu gosto de ambos e do colibri
As pessoas humildes, quem há de amá-las?
O poema as resgata. É preciso abraçá-las

Por que o Reinaldo me inspira?

Sob o sol do Equador, ele poderia estar roubando,,,
ou se escorando nas bolsas, nos vales, nos seguros,,,
Um meio dia desse, e 171 aplicando,
ele poderia...Os dias são pedregulhos duros,
que Reinaldo os vai dinamitando...
As casas tem altos muros,
mas o Naldo não os pula,
porque trabalha feito uma mula

Sobre o trabalhador informal

O Brasil e seus milhões de informais...
São desempregados, biqueiros, professores
fugindo dos impostos canibais...
Rola moamba da China, Hong Kong, Açores...
Paralisa as indústrias nacionais
os nossos impostos impostores...
Não culparemos o Naldo, marreteiro
-que a fome doída, só se sacia a dinheiro...

O homem de uma camisa só

Espantoso, o homem duma camisa só...
Descorada, enorme, desconfio de doação
A blusa, já fadigada, pega sol e toró
Rasgará um dia, dilacerando o coração...
A vida é meio amarga, imitando jiló
Frágil, delicada, feito bolha de sabão...
Será o pano uno politicamente correto...
Ou o monopano, miseravelmente concreto?

Campanha: doe uma camisa

Sociedade amapaense, gente querida...
Eu a conclamo à ação fraternal:
doaremos camisa floral ou florida
ao que dá exemplo ao Castelo Federal...
É gente que trabalha, de lida sofrida,
nosso Naldo, carne e osso, real...
Entre Padre Júlio e São José, eu repito
(a dois quarteirões do "lugar bonito")

Reinaldo, brasileiro sem espaço

Não há vagas para todos,
muitos hão de sobrar...
Quantos vão pilotar rodos,
fora do condicionado ar...
Cabem tantos pés nos lodos,
mas pouco caranguejo pra pegar...
Doutores se diplomarão poucos
Lamentarão todos os outros

Reinaldo, brasileiro que sofre preconceitos

Legião de seres (humanos!)
importantes -na campanha eleitoral
Passam-se mandatos e anos...
e a mesma estratificação social
Imperdoáveis os nossos enganos
de tratá-los vermes, e eu, general
Esculpidos no sal, as carcaças iguais:
todos passíveis a aneurismas cerebrais...

Nosso amigo Reinaldo, sempre nos ensinando...

Que resiste o brasileiro raçudo
aos coliformes disseminados...
Consola-o o equívoco absurdo
de que há povos mais famigerados...
O Reinaldo, pouco carnudo,
não come o filé dos deputados...
Dizem que não é crise, só marolinha...
Para o Naldo, é tsunami, sem piadinha...

Agradecendo ao Reinaldo

Agradeço-te, amigo, e peço desculpas
por trazê-lo ao público, sem permissão
Não se revide com processos, multas,
que este poema: amor, compaixão...
Se de alegria e júbilo exultas,
é porque boa a hora da ascensão...
Na paz sigas, entregando a Deus
os mais impossíveis milagres teus...

Finalizando esta coleção de poemas

O assunto já está se esgotando,
o do homem duma só camisa...
O leitor já está enjoando,
a lua vai alta e traz brisa...
A rima já vem capengando,
procurem outra poetisa...
Agradeço a todos, carinhosamente...
Aves em extinção me vem a mente... 

então... encerro aqui esta coleção de poemas. Peço aos meus seguidores, (se houver algum), que aguarde a coleção de poemas sobre pássaros em extinção.


segunda-feira, 2 de julho de 2012

Amor de laranja. E solidão de cinza

Sinfônicas e filarmônicas
Afinações desarmônicas

Benfeitorias e filantropias
Agonias e fobias
 
Cerejeiras em flores
 Borboletas sem cores

Fogo com fogo, sol
Luz reluz, farol


De tão triste, morre cedo
De tão tolo, tudo medo


O alimento para a fome
e o desalento de quem não come

Candura
e amargura

O advento
e o desvanecimento

O petiscar
 e o não arriscar
 O desfrutar
 e o desfolhar


O verdejar decerto

 e o vegetar deserto
 

Repartir e partir
Construir e demolir
Juntar e espalhar
Sorrir e lagrimejar

A casa arrumada
e a rima arruinada

Comungar carinho
e caminhar mesquinho

O amor é um sol
-que revela as cores de um atol

Solidão é uma noite
-dentro de uma eterna noite

O amor é o fundamento
A solidão é o findamento