terça-feira, 28 de agosto de 2012

Uirapuru-verdadeiro

Flautista e corneteiro,
feliz voava, e ligeiro,
o uirapuru-verdadeiro...
Entoava tão bela canção,
que a toda mata emudecia...
Ao raiar, e ao fim do dia,
a todo ser enternecia...
antes da desertificação

Pica-pau-anão-dourado

Apesar da plasticidade ambiental,
por onde...teu canto magistral
e tua cor de beleza anormal?
Barulhento, meigo, sociável,
pelo além revoas, ó estimado?
Por onde...ó ma'vilhoso dourado?
Choramos nós, ó adorado,
tua despresença, irreparável...

Pato-mergulhão

Lá vinha o pato, patati, patacolá...
N'água cristal, por aqui e acolá...
Um dia, e ele de volta, quiçá...
Foi a agricultura, irrigação, barragem...
Turismo de aventura, barulho, lixo...
Turvaram o remanso, seu nicho...
Não enxergou sua presa, o bicho...
Patati ele vem, em miragem...

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Arara-maracanã-verdadeira

Antes do comércio ilegal,
da mudança do clima global,
e da derrubada do buritizal,
o céu era verde de maracanãs...
O Pará e o Maranhão
(hoje ares sem canção)
sem formosura estão...
tal ovelhinhas sem lãs

Pica-pau-dourado-escuro-do-nordeste

Escasso na natureza, raro em museu...
Seus hábitos, seus traços, com ele morreu...
Pica-pau-escuro, em túnel de breu...
Sem saída, sem pesquisa, sem certificado...
Imaginemos então, sua penugem d'ouro...
Comendo o que, gafanhoto, besouro?
O poema não deseja mal agouro
mas bicho sem mata, tá ferrado!

domingo, 26 de agosto de 2012

Choca-da-mata-do-nordeste

Passarinho de sotaque pernambucano
Começou a ser extinto, salvo engano,
no desmatamento histórico, insano...
Pássaro solitário, um sobrevivente
da substituição da mata por cana
Lotearam sua floresta soberana
(a ave andarilha, na vida cigana)
Fita triste a choquinha o poente...

sábado, 25 de agosto de 2012

barranqueiro-de-olho-branco

Abracemos esse passarinho,
sociável, de estridente trino,
o barranqueiro, barranqueirinho...
Situação delicada, do bichinho:
necessita riacho, floresta
-procura inútil, nada mais resta...
Sem suas presas, na desfloresta
voa sem norte, em desalinho...

flautim-marrom

Amanhece o dia, lá vem flautim...
Alegrando a mata, a você, a mim...
Sempre sozinho, simples assim...
Cor de terra...e fim de poema!
Sem estudo, estratégia  de conservação...
Rara é a ave (fim da canção?)
Sem pesquisa e informação,
nem Mata Atlântica...pena!

arapaçu-pardo-do-nordeste

A Mata Atlântica silenciada,
a Mata Atlântica desmatada,
a Mata Atlântica mais nada...
O último arapaçu nordestino,
sob a árvore sobrevivente...
Indecoro da gente:
a indiferença à vida pugente,
o desprezo ao alheio destino...

domingo, 19 de agosto de 2012

caneleirinho-de-chapéu-preto

Vigia a ave, no alto do arvoredo,
o predador, causa de medo...
É o homem, com seu torpedo,
com sua flecha, e motosserra...
E colhe seus frutos, borrifa insetos...
Sem escrúpulos, incorretos
atos de posse -e indiscretos-
sob o mar, sob a serra...

rabo-branco-de-margarette

Poucos viram o rabo-branco-de-margarette...
Beija-flor ameaçado, em menos de sete...
No museu assim, não há quem o poete...
Voando leve (no pensamento),
co'a cauda da pena branquinha...
Banhando n'água limpinha,
seu bico rubro ou laranjinha...
Livre e leve -no pensamento!

papagaio-charão

Vem grave o poema, e na compaixão,
suplicar pelos direitos, do papagaio-charão...
Pela guabiroba, pelo seu pinhão!
Seu alegre bando, sua liberdade!
Pelas cavidades pra nidificação!
Sua Serra do Mar sem violação!
Pelo direito ao voo e à canção,
roga o poema: piedade, piedade...

entufado-baiano

Um pássaro é importante...
Mesmo que seu canto, distante...
Mesmo que seu voo, avante,
adiante... Radiante ser:
cantarolador, inocente...
E a gente, egoísta e prepotente,
consciente, e não ingenuamente,
dizima tudo...o que se possa mover

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

pintor, pintor-verdadeiro

Do seu habitat, perda brutal:
restou 2% do original...
E a captura intensa, ilegal...
Meu Deus, como perseguem o pintor!
Ave de magistral beleza,
querem-na triste, mas presa...
Adultos e crianças, sem delicadeza,
sem piedade -atrás deste amor !

Arapaçu-galinha

Matam-me as alterações ambientais...
Minhas matas, em rodovias federais...
Eu, que nidifico em ocos naturais,
fiquei sem lar, sem par, com fome...
E sem minhas áreas alagadas,
e a liberdade da alegre revoada, 
e a beleza da noite enluarada...
Arapaçu-galinha é meu nome

Veste-amarela

Pelos campos drenados,
feliz...Pelos cultivos banhados,  
feliz...Pelos vales turfados,
feliz, bem feliz forrageava...
Antes dos ninhos parasitados,
antes dos ovinhos pisoteados,
e dos filhotinhos queimados,
feliz, feliz cantarolava...

Arara-azul

Pobre de ti, ó encarcerado...
O que fizeste de tão errado?
Qual o teu mortal pecado?
Sem julgamento, atrás das grades...
Suas penas, para artesanato...
Sua beleza, para o retrato...
Saudade vem, do triste fato
-a conivência das comunidades... 

Coroinha

Preto e amarelo: lindinho!
Na cabeça, um "boné" pretinho...
Direto pro mercado clandestino,
o coroinha, pintassilgo belíssimo...
Era de Pernambuco, de Alagoas...
Sem mata e sem lagoas,
por onde agora voas,
ó serzinho raríssimo?

Cigarra-verdadeira

Nas gramíneas, na borda da mata,
um remorso nos maltrata:
a cigarrinha -mais exata,
a sua lembrança...
Expulsa das restingas e serras...
Seus taquarais, em crateras...
Na mão das humanas feras:
cativa da desesperança...

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Araponga-de-barbela

Da mata úmida: araponga-de-barbela
Quisera ela, ser menos bela
(livrar-se-ia da ferrenha cela)
Sua martelada de metal,
a nos gritar estridente:
Mata Atlântica, caso urgente,
e outras matas igualmente...
A mata pela soja, barganha letal...

Pichochó

Cantou a ave: "tchó tchó tchó"
Ganhou o nome: "pichochó"
e uma gaiola (dó dó dó...)
Jogaram pesticidas nos arrozais
-nunca mais se ouviu um pio...
A ave, com estômago vazio,
procurou, por anos a fio,
frutinhas nos taquarais...

Caboclinho-de-barriga-preta

Nas áreas de campos naturais,
antes das alterações ambientais,
e do comércio e capturas ilegais,
cantava alegre, co' a patativa...
Saciando-se de semente e canelão,
entoando bela canção,
nos montes de Monte Sião,
ei-la em lembrança, altiva...

Arapaçu-escamado-de-wagler

Era de floresta seca e mata de galeria...
Bichinho e artrópode lhe satisfazia...
Se não desmatássemos, mais se saberia...
Conheceríamos a fundo, de verdade:
o seu bioma, sua nidificação...
Sua formação de bando, sua reprodução...
Sua espécie, e interrelação...
Seu canto alegre, na liberdade...

Cotinga-crejoá

Trancaram-na numa cela
Botaram no brinco a pena dela
E ao final, a panela...
É a ave, nas garras humanas!
Seu bioma, em loteamento
Seu solo vivo, em morto cimento
Seu canto alegre, esquecimento...
(Sob a ave, garras insanas!)

Anhambezinho

No Centro de Endemismo pernambucano,
desmatamento, irreparável dano...
Ano após ano,
diminuem os anhambezinhos...
Hoje são cinco exemplares,
há muito eram milhares,
no futuro, serão ares...
tristíssimos, sem anhambezinhos...

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Choquinha-de-alagoas

Pequena choquinha,
forrageia de manhãzinha,
montanha acima...
Se virando atrás de alimento,
num tiquito de mata...
Sabe o que a mata?
A transformação insensata 
do mato em cimento!

Saudade-de-asa-cinza

A cor da saudade: cinzenta
Fogo na mata: tormenta
A mão da salvação: lenta
Pássaros brasileiros, guerreiros...
Asa-cinza dos montes nebulosos,
dos dias futuros nebulosos...
Os madeireiros, não generosos...
Pássaros guerreiros, brasileiros...

Tiriba-pérola (do Centro-Belém)

 Endêmico do Centro-Belém,
do comércio ilegal também,
este táxon ameaçado vem...
pedir reserva ecológica;
pedir seu delta e ilhota:
pedir seus frutos de volta;
pedir proteção e escolta;
nossa coerência e lógica...

Arara-azul-de-lear

Esplêndido azul cobalto,
em busca do licuri, no alto,
da palmeira...pego de assalto!
Perseguido pelo fazendeiro
coletador de coquinhos;
o pecuarista, criador de porquinhos;
o traficante, de sentimentos mesquinhos...
E pelo resto do mundo inteiro!

Tiriba

Na mata, alegre e encantador...
Na gaiola, saudade e dor
-o bando amigo e cantador
Fechado numa caixinha:
tremendo de medo!
Periquito trancafiado em segredo...
Seu destino? Morrer mais cedo,
pensando na cabucra verdinha...

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Pássaro em extinção

Pássaro de lindo colorido...
passível de ser rendido
e sequestrado, sem alarido...
Pequenino: mimo de colecionador
Grande: destina-se à panela
Médio: sua pena amarela
enfeitará orelha de donzela
-deixando a mata sem cor

Jaó-do-litoral

É mais ouvido do que visto...
O brasileiro, muito arisco,
fez empreendimento turístico
das matas do Rio de Janeiro...
Lotearam seu dormitório,
empreenderam seu território,
deram-lhe espaço irrisório...
e um tiro certeiro!

Caboclinho-de-papo-branco

É o popular papa-capim...
Grande desgosto em mim
quando queimam seu capim...
Plumagem alvinegra, bico amarelo...
Mais um engaiolado!
Retirado do Pantanal, do Cerrado,
levado pra feira, humilhado...
Denuncia o poema singelo

Tiriba-pérola

Extremamente preocupante...
O tiriba agonizante
ex-floresta de baixada tutibiante...
Um pequeno periquito,
um ser sensível e vivo,
habitando museu e livro,
onde lê-se "extinto"...
Desmatamento maldito!

Chorozinho-do-papo-preto

A caatinga virou carvão
A mata seca, plantação
E o chorozinho, canção...´
Espécie rara e local,
no nordeste minguando...
Os incêndios os vão queimando...
Filhotes órfãos pranteando...
Vergonha nacional! 

sábado, 4 de agosto de 2012

Bico-virado-liso

Habitat sob recuperação,
corredores ecológicos sob proteção,
estudos para certificação...
tudo vital para a sobrevivência
desse pássaro sociável,
do canto agradável,
do valor inestimável...
Pede-nos ação -e clemência!

Zidelê-do-nordeste

Na copa da árvore, bem alto,
um canto diferente, em contralto,
de emoção nos apanha -sobressalto!
O belo pássaro, cadê?
Entre cipós e bromélias,
nas matas mais velhas,
antes das caravelas,
feliz zidelê!


Rabo-de-espinho

O macho tem cauda alongada,
altamente modificada,
a cauda é também bifurcada...
Sabe o que é mais interessante,
é o bater de asas, gostoso barulhim...
Seu ninho em forma de taçabem feitim...
O beijo na flor amada, um amorzim...
Mas que sumiço angustiante!

    

Limpa-folha-do-nordeste

Chamaram-no no play-back e nada!
Armaram arapuca, e nada!
Artrópodos apetitosos, nada!
Sumiu sem deixar endereço,
junto com as bromélias amigas,
das florestas abertas extinguidas,
e das florestas semidecíduas...
Desmatamento e seu preço!

Cardeal-amarelo

Belíssimo pássaro sulista,
mais raro que ametista,
de cores agradáveis a vista...
Habita o mercado ilegal
-perseguido pelo canto agradável
Expulso pela orizicultura rentável,
e pela pecuária engordável,
pobre cardeal!

Gavião-pomba

Elegante alvinegro, gavião-pomba...
mais pra gavião que pra pomba...
Sua situação é uma bomba!
Os gavíões, caçadores e caçados...
De dieta: sumiram seus mamíferos...
As cobras, quitudes raríssimos...
Pelos zoos do Brasil, tristíssemos...
os gaviões, ameaçadores, ameaçados...

João-do-araguaia

Imagine o mundo sem passarinho,
sem a engenhoca do seu ninho,
e o canto alegre do joãozinho...
E o Araguaia, sem matas ciliares,
as suas águas bombeadas,
as suas aves revoadas,
as suas terras cimentadas...
Sem joãozinho, que tristes ares...

Rabudinho

Ninguém respeita o Parque do Espinilho!
Desmatamento, queimada (arroz e milho)
Esse trem não encaixa nesse trilho...
Entregue às baratas, a savana de espinilhos...
Pecuaristas no campo a "limpar",
rebanhos a pastejar,
algarrobos a pulverizar...
E o rabudinho a ver navios...

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Anambé-de-asa-branca

Um contingídeo inconfundível...
Da Mata Atlântica, quase invisível...
Beleza púrpura, inexaurível...
Asa-branca, bateu asas e voou...
Das matas, destituída
-secundária e semidecídua
A uma unidade ficou restrita
e o seu canto nem ecoou...

Papagaio-da-cara-roxa

Papagaio colorido da praia,
antes que o traficante o traia,
e na arapuca da cobiça caia,
voa, meu amor, pro mar inacessível...
Ao turista do Paranaguá:
sua buzina o afugentará,
 fará chorar o Paraná
pelo "cricri-crecréu" inesquecível...

Maria-da-restinga

Podem ser vistos em simpatria,
a maria-da-restinga e simpatia...
Seu declínio me causa antipatia,
maria das penas cor de bandeira...
A especulação imobiliária forte,
floresta ombrófila em processo de morte,
a expansão da pecuária de corte
-deixaram maria sem eira nem beira...


Mãe-de-taoca-pintada

Mãe-de-taoca vitoriosa,
à fragmentação resiste, corajosa ...
Mãezinha da mata, chorosa...
Pudera o poema salvá-la...
das madeireiras desmesuradas,
das grilagens das terras marcadas,
'té das tribos armadas...
Ó Deus, quisera o poema salvá-la! 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Pica-pau-da-cara-amarela

De floresta ombrófila densa,
enfrenta situação tensa,
na Mata Atlântica pouco extensa...
Eram árvores de grande porte,
abrigavam insetos camuflados...
Habitat araucáricos dizimados,
planaltos e litorais modificados...
O pica-pau conta com a sorte

Socó-jararaca

Do socó-jararaca tenho pena...
Tanta beleza: arco-íris penas
Seu voo elegante, bonita cena
Ave sensível à mais leve alteração...
Por isso tenho pena -águas poluídas
Dá pena, pena -matas vendidas
Dá dó -essências extraídas
Política de preservação: eis a questão!

Trinta-réis-real

Os gaviotões lhes tiram o sossego...
Os tiros da marinha, e adeus sossego...
Pescadores esportivos e desasossego...
E até a manutenção do farol,
o derrame de óleo, os perturbam...
Homens, helicópteros, os perturbam...
Músicas, cães e gatos, os perturbam...
E turistas, e mergulhadores no atol... 

Arapaçu-do-nordeste

Os arbustos convertidos em carvão...
As borboletas, em coleção...
Fauna e flora, em decoração...
As matas secas do São Francisco,
para a agricultura irrigada...
O sumiço do arapaçu me deixa irritada...
O descaso do governo me fez enrugada...
Eles tratam o arapaçu como um cisco!

Pintor, Pintor-da-serra-do-baturité

Baturité, Maranguape, Aratanha:
matas de serra,  clima-montanha...
Tudo lindo, mas coisa estranha
-sem o pintor, que triste serra...
Os ninhos vazios, muito triste...
A mata descolorida: triste...
Os frutos sem aves -triste!
Triste o céu, mais triste a terra...

Soldadinho-do-araripe


Vai marchando, incansável, o soldadinho...
Pelas matas ciliares, a fazer ninho...
Vai fugindo do sagui, do gambazinho...
Soldadinho, ameaçado tangará...
Arara-azul, soldadinho e anhuma...
Atrás das nascentes, acharam nenhuma...
Dos buritizeiros, coisa alguma...
Vai marchando, já cansado, o tangará...