quinta-feira, 27 de setembro de 2012

uru-do-nordeste

Que dizer do uruzinho,
do feitio do seu ninho,
da ecologia do passarinho...
Se não está nem no museu,
na mata então...
Que dizer da sua distribuição,
seu estado de conservação,
se ele já morreu?

arapaçu-pardo-do-xingu

Emudecera a ave trigueira,
na corredeira,
do interflúvio tapajós-madeira...
Em meados do ano ao final,
a sazonal fanfarraria...
Nada nos aprazeria,
revêssemos real alegoria,
alegria vital...

vira-folha-pardo-do-sudeste

Vem a floresta se fragmentando,
a passarada minguando,
a rima gorando...
A ave, rara e restrita,
num pingo de floresta...
Ao poeta, o que resta?
Noticiar fim de festa...
É ave e poesia contrita

saíra-apunhalada

Saíra-apunhalada,
pelas costas golpeada,
na rima óbvia e esperada...
Nas matas de altitude
do leste de Minas ao Rio de Janeiro,
a Mata Atlântida em cafezeiro,
"dá mais dinheiro" -o fazendeiro,
que capitalista atitude!

bacurau-de-rabo-branco

No oeste de Goiás, os bacurais,
procuram cupins e capinzais,
em vão, porém: eucaliptais,
mais soja e pastagem,
serraram o Cerrado...
O pássaro desnorteado
achou tudo complicado:
o seu bioma em miragem!

chupa-dente-de-máscara

Em capoeiras e canaviais,
solitárias ou em casais,
patrimônios naturais
das matas pulverizadas...
Mas apesar da valentia,
vítimas da covardia,
da nossa dessabedoria;
suas vivendas apoderadas

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Patinho-do-nordeste

Não o encontrei na wikiaves,
nem na wikipedia,
nenhuma enciclopédia,
eis-me aqui em desalento...
Mas me salva o governo brasileiro,
no veredito derradeiro:
o pássaro mateiro
sem dormitório e alimento...

arapaçu-de-garganta-amarela

O que se sabe dela?
De garganta amarela?
Na Mata Atlântica, ela,
ave não mais vista?
E é mais um poema difícil...
O poeta utilizando artifício,
sem informação, um míssil,
na cabeça do biografista...

tricoliono-canela

O Paraná alegre, nunca mais...
Tristes as estepes e os litorais,
savanas e restingas residuais...
O tricoliono, pequeno e dócil,
substituído por rebanho...
Ou por qualquer projeto estranho
-perde o bicho e eu ganho
pro meu armário, um fóssil

macaquinho-da-várzea

Graça e meiguice, eras tu...
Alegria e macaquice, eras tu,
ó pássaro querido do sul, 
que nas planícies revoava...
Antes do canal de drenagem,
da enchente por barragem,
e do fogo na pastagem,
gracioso forrageava...

arapaçu-de-taoca

Ameaçada ou extinta,
se sobreviveu, faminta,
na capoeira, que não pinta,
um mísero besouro...
Do Tocantins ou Maranhão,
madeireiros não se dão
conta do vacilão:
Amazônia, tesouro...

Udu-de-coroa-azul-do-nordeste

Do udu, pouco a se dizer...
Pudera um ornitólogo, me socorrer,
citando as cores, que vão se perder,
na mata alterada, saqueada...
Sem murici, bem precioso,
e o inseto gostoso, apetitoso...
Segue o pesquisador ocioso
-a ave não mais avistada...

juruviara-de-noronha

Na copa das figueiras,
o bando, em brincadeiras,
caçava,  nas capoeiras,
da Noronha intocada...
Mas muita água correu,
juruviara, e cá 'stou eu,
a não celebrar teu jubileu,
a lhe rimar com finada...

pararu

Mais uma ave desconhecida...
Nenhum ornitólogo elucida
os enigmas da dita vida...
Em antanhos, nos taquarais,
leves e livres,
nos montes, nos declives,
com seus azuis incríveis...
nas matas virginais

Formigueiro-de-cabeça-negra

Os papa-formiga, de Angra dos Reis,
em poucos exemplares, 23,
vivem num inferno, como vês:
 a Angra não é das aves -dos reis...
O turismo é de luxo, mês a mês...
O real é ladrão, da lucidez...
pois é pasto e cultura, ao invés
da restinga que lhe tomaram, vocês...

gravatazeiro

Salvem o gravatazeiro da extinção!
Foi tão sombrio esse verão...
Ares de morte, sem canção...
A "mata de cipó" desvanecida,
co'a lenha do nosso luxo...
Vai bromélia, vem lixo,
insustém a vida do bicho,
que para o homem, é nada...

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Mutum-do-nordeste

Caçadores profissionais e amadores,
mateiros maus e matadores,
e os mutuns vencidos, esses amores...
Mas o poema, de rancoroso,
ao brando tom de gratidão:
a ave em criadouro, em multiplicação!
Em breve, sua reintrodução!
O futuro, enfim, esperançoso...

arapaçu-platino

Nem Parque do Espinilho
nem arapaçu-platino
e seu bonito trino
-só mata assolada
A lenha levada pra longe,
o arapaçu...aonde
e a alegria, donde,
se a savana, calada?

choquinha-pequena

A choquinha, tão pequenina,
ingênua e pueril menina,
não desconfia, não imagina,
seu grave status de ameaça...
São florestas desflorestadas,
das madeiras retiradas,
das riquezas leiloadas...
Desgraça, trapaça...

joão-baiano

Na Serra das Lontras e Boa Nova,
notícias nada boas, nem novas:
escolhem os pássaros suas alcovas! 
Os artrópodos escassos, reclamam
as aves da ex-mata serrana,
aves sem lares, na vida cigana...
Sem brenha e liama,
no além plainam...

galito

Vulnerável ou extinto
no campo faminto
sob fogo, aflito
-indefeso galito
Seus insetos queimados,
seus cerrados serrados,
seus sons silenciados...
é mundo menos bonito

chororó-didi

À beira do riacho,
no sub-bosque baixo,
sofreu um golpe baixo,
o pobre chororó...
Seus artrópodos envenenados,
seus dormitórios  trocidados,
seus córregos ressecados...
retornando-o ao pó

bicudinho-do-brejo

Extração de fibras pro artesanato; erosão;
espécies exóticas que fecham a vegetação;
sujeira n'areia, e sua extração...
Enfeiam o poema e extinguem aves
Patina o verso entre o feio e o bonito
-melhor acudir o pássaro aflito
Quem sabe, um coração contrito,
salvará as aves (e as rimas suaves...)

papa-moscas-do-campo

Na haste central do capim,
quant'alegria pra você, pra mim:
canta o amado passarim'...
Ameaçada, porém, a emoção:
são áreas de campos "limpadas",
e áreas úmidas aterradas,
e áreas secas encharcadas...
Angústia na área do coração...

coperete

Atrás de ovo e sementinha,
besouro, formiguinha,
vinha a ave,  animadinha,
certa de encher a pança...
Devastaram suas savanas sulinas,
ao invés de inhanduvás genuínas,
as águas salobras, salinas
Frágil coperete quem dança...

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Sabiá-castanho

Raro e pouco avistado,
difícil de ser poemado,
que dizer do danado...
Era das matas montanas,
economicamente visadas,
hoje loteadas...
São as aves expulsadas...
das retalhadas montanhas

pardela-de-asa-larga

Eu sou a pardela-de-asa-larga...
Tive um dia ruim, uma noite amarga...
O rato é uma peste, o gato é praga...
Dilaceram ferozes, o meu ninho...
E as ameaças que vem do mar...
O barco com iscas, a me fisgar...
Turista e barulho, a me afugentar...
Minguou de fome, meu filhotinho...

pardela-preta

Na costa do Brasil,
vinha a pardela, atrás de krill...
Tão faminta, que engoliu
anzol iscado, de espinheleiro...
A pesca no método pelágico,
mais um incidente trágico,
que retira do céu o ágil
voo do bravo guerreiro...

albatroz-errante

Capturam os albatrozes bonitos,
os espinheleiros malditos!
São albatrozes famintos,
a morderem isca mortal!
E um a um assim definham,
e ano a ano eles declinam...
Medidas mitigatórias decairiam
a extinção do fabuloso animal...

albatroz-de-tristão

Infeliz albatroz-de-tristão, 
extinto na Ilha de Tristão,
vítima de exploração:
ovos para os habitantes locais...
'inda capturados, de forma brutal,
por espinheleiros, no litoral,
e fora da área continental...
E é pouca alegria e muitos ais...

Bicudo

Engaiolaram o bicudo,
por ele ser não sisudo,
e seu canto, lindamente absurdo...
Valeu a pena, sua boniteza,
graciosidade e mansidão?
Se tudo finda, numa prisão?
Grade, aço, e  solidão...
Metal e vida, na frieza...

junqueiro-de-bico-preto

Junqueiro, passarim' residente,
um valente sobrevivente:
seus gravatazais em fogo ardente!
Ave forte e guerreira,
se virando nas matas alteradas...
Ideal, fossem criadas,
Unidades nas áreas alagadas,
guardiãs da ave trigueira...

caboclinho-de-chapéu (pequena espécie de papa-capim)

'Spalhando sementes dos capinzais,
esverdeando os pantanais,
gramando os macegais,
o caboclinho é assim, funcional...
Mas é pinus, fogo e gado,
é drenagem de campo banhado,
é o papa-capim assolado,
co'a mudança do clima global...

mutum-pinima

A caça impiedosa,
e a troca desastrosa,
da mata pela 'oleaginosa,
e nosso mutum...adeus!
Feliz nas matas primárias,
antes das gripes aviárias,
e estradas rodoviárias...
Mas hoje na paz de Deus

grazina-de-trindade

Martin Vaz, Reunion, 
Açores, Ascencion,
aninharam um som bom:
da grazina-de-trindade...
Nas eras mais remotas,
paradisíacas ilhotas,
vigiaram grazinas ignotas...
isentas da humanidade

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

albatroz-real-do-norte

Albatroz-real-do-norte,
eu não quisera rimá-lo com morte,
mas a vida, tão raro dote,
lhe esvai, como breve chama...
Pela Sul-África e oceano Austral,
barco espinheleiro (inferno astral),
ferrenhamente lhe fisga, acidental,
obscurecendo o sol, de quem te ama...

Furriel-do-nordeste

São pássaros impoemáveis,
de descrições impraticáveis,
figuras inenarráveis...
Sem foto na internet,
de biologia obscura...
Seria a carne não dura
causa do sumiço da criatura?
Ou a valia do seu topete?

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Rabo-de-junco-de-bico-laranja


Ave monogâmica,
de graça magnânima,
de beleza magnífica...
Ave esmorecida...
São turistas truculentos,
são ventos turbulentos,
são tempos mui cruentos,
da nossa mão atrevida...

Gaivota-do-rabo-preto

Proteger as marismas,
seus caranguejos, mariscos,
e as enseadas marinhas,
e as gaivotas elegantes...
As paisagens, tão lindas...
As aves, em missões findas...
Os homens, que ainda...
trocam vidas por diamantes!

Maçarico-esquimó

A pecuária extensiva,
a caça repulsiva,
a ocupação humana explosiva,
e adeus maçarico-esquimó...
Nossas eternas saudades!
Nunca mais aquelas beldades,
aquelas graciosidades,
cantando alegres no cipó...

Tesourão-pequeno

E sonha, o pequeno tesourão,
com sua Trindade, em sosseguidão:
sua ilha é só estouro de canhão!
É a Marinha, seus treinos militares,
 a infestar mares de pólvora e susto...
E cabras famintas, a devorar arbusto
que serviria de poleiro, ao crepúsculo...
E mais rato e homem, a infestar os ares...

Inhambu-carapé

Na cor ferrugem e escura,
vem penosa a vida, e dura...
Sai semente, e vem cultura
-é soja, cana, algodão...
Sai gramínea, e vem pasto...
Some o Cerrado, e sem rastro...
O solo, sem arbusto, gasto...
Entra o silêncio, sai canção...

Gavião-cinza

Entre a Lagoa Mirim e a dos Patos,
agoniza a ave, sem patos,
sem lagartixas e ratos...
Do oeste gaúcho ao Banhado de Capão,
o pinus impera,
a turfa abre cratera,
e há arroz onde era,
a casa do gran' gavião...

Formigueiro-do-litoral

Na restinga de Cabo Frio,
na Região dos Lagos, no Rio,
um sumiço, um calafrio...
Cadê você, formigueirinho?
Sem arbustos e insetos,
seus ninhos descobertos,
os dias incertos...
E jaz um passarinho!

sábado, 8 de setembro de 2012

Pardela-de-óculos

Mergulham atrás de suas presas
pardelas ingênuas, indefesas...
e por iscas mortais são presas!
É o navio com seu espinhel
a usar método pelágico...
Pudera um milagre mágico
evitar incidente trágico...
Devolvendo a pardela ao céu!

Grazina-de-barriga-branca

Entre a África e o Brasil,
raras vezes se viu
tão lindas aves no céu anil...
Debilitadas e franzinas,
na praia aparecem mortas...
Pelas nossas atitudes tortas,
nas suas frágeis ilhotas,
 fenece o belo, co'a grazina...


Codorna-mineira

Os caçadores inimigos,
capturaram os tatus amigos,
que cavavam seus abrigos,
expondo a codorninha...
E os venenos borrifados,
e os fogareis no cerrado,
e os matos eucaliptados,
deixaram-na triste e magrinha...

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Urutau

A voz queixosa e plangente
em nota grave e decrescente
sensibilizava toda a gente...
Na cor parda em tons de canela,
pousava no galho, camuflado...
Mas isso não o livrou, coitado, 
do status de ameaçado
-o pássaro sob nossa tutela