sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Na real

Gran' momento, eis o dia...
Ou amanhã, quem saberia...
Dizer-lhe adeus, ó Zeus meu...
Guardar meu sonho em museu...

Tão tolinhas, todas nós...
Crer que o tempo veloz, 
algoz...Aduzirá de volta
Dileta águia sem rota...

Então vá, ó cavalo de fogo!
Prossiga fazendo seu jogo:
levar o que nunca foi meu...

Mulheres bobas, mais eu...
Esperar no que já é pó
(ou rimar amor com jiló)

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Na saudade (número nove)

Meio a nevoeiro, eis que vem...
Espectro etéreo, imaterial...
Breves brumas (odor floral)
Beijar-me, ele vem bem...

Além do sonho, num trem,
meio a febre viral, vendaval...
Desvairado tino, surreal...
Airado verso, blém blém!

Rutilasse aqui o meu bem...
Cintilante luz boreal!
 Lume grácil de cem

mil lamparinas cristal...
Vida, poema, de alguém
delinearia eu normal...

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Na saudade (número oito)

A saudade é uma sombra,
grudada em minh'alma...
Da minha mão, da palma,
eu dispensei Holambra...

Afável jasmim-sombra,
irradiador de calma...
Segue o corpo, sem alma...
Ruma o poema: solombra...

Abster-me-ei do sorriso
distante do meu amor...
A Rosa sem seu Narciso,

chafurdará na dor...
Sem um néctar de siso,
vaga abelha sem flor...

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Na saudade (número sete)

A brisa é meu alimento,
e meu nome é saudade...
Minha razão, na ebriedade,
meu dormitório, no vento...

Caduca meu pensamento,
no sombreamento da tarde...
Tudo que é amor, me arde;
for distância, desalento...

Tua despresença,
minha cousa divina:
minha desFlorença...

De banzo a sentença,
ser Capela Sistina...
Isenta em Renascença!

Na saudade (número seis)

Na saudade (não em debalde)...
Posto que tua atividade incrível,
de neurônios e de cachola em nível
reptante...Nas letras, no debate,

imperara, ó meu Andrade
Carlos Drummond, inoponível,
inteligente, inteligível...
Na contemporaneidade,

da (in)formação,
própria portabilidade,
ó meu Platão!

Ó meu Plutão,
minha titularidade?
Nossa rescisão

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Na saudade (número cinco)

Certamente e mui brevemente,
para sempre irei lhe esquecer...
Sem antes de lhe dizer,
que meu âmago mente...

Pois estás intrinsecamente
diluído em meu ser...
Como é bom lhe ver,
permanentemente...

No sonho, ao vento,
no livro, em canção...
Seria o dia nevoento

e noite sem violão...
Tu jazesses ao relento,
longe do meu coração...


domingo, 26 de janeiro de 2014

Na saudade (número quatro)

Estou quase lhe esquecendo,
porque já estou sucumbindo...
A saudade me engolindo,
já estou quase morrendo!

Já chamei o Reverendo,
Pastor, mais um Rabino...
Tragam flores, toquem sino,
e o poema, vão escolhendo,

para minha despedida...
Pois cruel demais a vida
de quem respira ausência...

Esperança, só na ciência:
se clonassem o meu amor,
brindaria co'o alfajor...


sábado, 25 de janeiro de 2014

Na saudade (número três)

Olhar pra trás e perceber,
sim, valeu tudo a pena...
A alma não foi pequena,
mesmo que se pôs a perder:

o amor, e seu poder
de doar perfume à verbena,
conferir graça à açucena,
mesmo que venha doer

eternamente!
Valeu, meu coração...
Lembrá-lo é premente,

seja em canção,
seja simplesmente...
É brinquedo não!

Na saudade (número dois)

Saudade de quem está vivo...
Posto que humano valioso,
ser de coração piedoso,
aperfeiçoa esse primitivo

mundo...Era compassivo,
no espinheiro, lírio mimoso...
Na feiura do mundo, garboso
condor redivivo...

O poema vem revelar,
que humana humanidade,
vem recobrar...

Mesmo em saudade,
fora da minha realidade,
cheiroso pomar...


Na saudade (número um)

O que é a saudade?
Um tempo que passou?
Um tempo que teimou
em perseguir a sanidade?

Uma mulher e sua saudade...
Seu sonho que se queimou,
comer pão que diabo amassou
'após negar benignidade...

É a saudade:
juntar os cacarecos
de uma felicidade...

O coração em pandarecos,
intentando sobriedade...
Felizes os marrecos!

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Ainda o admiro

Aconteça o que for,
guardarei-o em pensamento...
Como se fosse documento,
um contrato de amor...

A todo ocaso multicolor,
contemplarei o firmamento...
Cultuarei cada momento
da plenitude da flor...

Estarás bem guardado,
no meu altar de emoções,
onde santificado...

Não por não ter pecados,
mas por tuas boas ações
e outros predicados...

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Nunca me declarou

O dia em que amanheceste
comigo, passarada e sol!
Colorido delicado o atol,
n'aurora que tu teceste...

Por que tu não disseste,
ó águia que domina o céu,
a palavrinha que era mel,
em que ninho escondeste?

Amor, amor, amor...
Fácil dócil:
a-mor

Antes dito
seria tua flor, amor
favorito!

Ainda apegada (número três)

Foi como viagem azul-
mar, não, esmeralda...
Laranja-da-terra na calda,
flor de mandacaru...

Foi como um vento sul
de vigorante rajada...
Amei e fui amada,
meu marlim-azul...

Pelo afora eterno
teu não-estar
me segue terno...

Meu coração enfermo
não põe termo
Ah! Teu olhar...

Ainda apegada (número dois)

Quero 'spalhar a saudade
em ares que eu possa arfar...
Teu nome quero grafar
n'areia que mar não invade...

Sob beija-flor de saudade,
a rosa se pôs a exalar...
O momento do brotar,
vou 'screver eternidade...

Quero beber água
que já correu pela ponte...
Quero lavar égua

co'a água da mesma fonte...
Voar junto a águia:
sempre o mesmo horizonte...

domingo, 19 de janeiro de 2014

Ainda apegada (número um)

Quero enterrar a saudade
ao pé d'uma montanha
que não me seja estranha,
para pegá-la mais tarde...

Quero enterrar a saudade
não lá na Alemanha,
mas aqui na entranha
da minha insanidade...

Quero dizer adeus
duro drástico:
tu, meu Zeus...

Um coração de plástico
menos fanático,
dai-me ó Deus!

sábado, 18 de janeiro de 2014

Em pedaços

Eu vivo de adeus,
teu nome suspiro...
Habito um retiro
co'os vestígios teus...

Só sabe Deus
o quanto me firo...
Se eu retiro
os cacos meus, teus

da minha memória...
Que é uma sacola
pesada de joia:

os rastros teus
nos passos meus...
Que história!

Apagão

Hoje, nenhuma luz
baixou sobre mim...
Nenhum clarão no fim
do túnel reluz...

O poema de hoje traduz
o início do fim...
Sempre adiado, enfim,
mais um ano-luz...

De rosa regada de pranto,
de diáfana alegria,
de pássaro sem canto...

Poema sem magia,
isento de espanto...
Oh, Arcádia arredia!


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Amigas arrependidas (número quatro)

Vá soneto, inversamente,
na senda da esperança...
Posto que o sol não se cansa,
entristecer o poente...

Saudades, eterna aliança,
uniu o sonho e a corrente...
Plantou na seca a semente,
pôs barco em bonança...

A amiga me desculpando
o canto tão frio...
É que a poetisa chorando

nostalgia, um rio...
A lua minguando:
mais um poema sem brio!

Amigas arrependidas (número três)

Não reluz o poema esperança,
nem traduz o termo conforto...
O soneto já nasce morto,
e sonolento avança...

Rumo ao mar que não balança,
tanto sal, é Mar Morto...
O coração é um galho torto,
mas noutro, não trança...

Ó amiga, perdeste teu tempo
em lançar tua rede
em vago vento...

Águas balsâmicas, bebas,
noutro passatempo...
Uma pedra, por mim, sejas...

Amigas arrependidas (número dois)

Lamuriemos juntas, amiga...
Nós, que esbanjamos a chance
do menos imperfeito romance...
Deixemos que a torrente prossiga

aspirada pela memória rica:
a alegria mais esfuziante...
Nós, que descartamos diamante,
vertemos lágrimas em bica...

Escorrerá assim a vida, 
entre o sonho e o real...
A saudade amortecida,

vem da rede social...
Teia de amor tecida,
com fios de vendaval...

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Amigas arrependidas (número um)

Tu, que já rendeste ao amor...
Vens agora buscar no poema,
antídoto para o problema,
tua, nossa crônica dor...

Endereço errado, minha flor...
A mesma dor de Iracema
acomete também Jurema...
E o poema é um devedor:

do bálsamo perfumado,
da palavra confortante,
do ferimento suturado...

Mas há uma luz possante:
um milênio passado,
restará só o diamante...

Ainda arrependida

Do dicionário da vida,
a contrição: chance perdida...
Privar de quem nos entendia,
o singular lírio-d'um dia
                                                 (recende hoje em dia)

Pudera fazer uma alquimia...
Máquina do tempo, eu voltaria
ao vento bom de Andaluzia...
Soneto meloso, uma doçaria 
                        (escreveria)

Perdi, perdi, perdi!
O tão benevolente
colibri-bem-te-vi
                                 (no meu peito aqui)

Não era aparente,
mas amor eu senti,
ó meu amor apetente
                    (perdi, perdi!)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Até o fim

Um dia hei de lhe esquecer!
O dia do apocalipse pessoal
aquinhoado de odor floral...
Mas antes do sol não nascer,

o célebre túnel, e ver você...
Seu sorriso tão natural,
galgando comigo o sideral...
Como num cine prive,

tê-lo na tela da mente...
Com vantagem do carinho
de antigamente...

Até que o torvelinho
de luz, subitamente,
tudo em redemoinho...

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Ainda não resignada

Da Missa, não ouviste a metade...
O quanto eu o admiro,
o quanto me desatino,
a saudade que me arde...

Na noite, e na tarde...
Mesmo atrelado a outro destino,
eu o aguardando, como um filho,
guardando-o como uma jade...

Oh, meu passarinho,
um dia lhe deixarei partir...
Do meu eu mesquinho,

uma pomba da paz, parir...
Ó meu menino,
que será de mim...

Teu passamento

Avise-me quando morrer!
Quero carpir por três dias,
rezar mil Ave Marias,
vestir-me de freira...

Virão me socorrer!
Eu, recitando poesia
de amor, sem hipocrisia,
crendo no teu desmorrer...

Melhor eu primeiro
partir então...
Evitaria o mosteiro,

e o olhar ao chão...
Livrar-me-ia de ver teu cruzeiro,
co'a flor-da-paixão...

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Peço-te perdão...

Pelo eu te amo não revelado,
o meu afeto não admitido...
Oferecer-te pão amanhecido
e um café requentado...

Pelo semblante amarrado,
por não dividir contigo:
a amizade, o figo,
o por-do-sol dourado...

Por não o ter esquecido,
pedir perdão ajoelhada:
ainda o trago comigo...

Peço perdão, ó meu amado...
Sentir-me ainda aturdida:
o beijo no cinema roubado...

Estrela primeira

Há um nome que me tira o fôlego,
há um nome que me soa flauta...
Uma certa voz que me assalta,
que ataca o meu fígado...

Há um cântico antigo e mágico,
há delírio e febre-de-malta...
Há um colóquio e sua falta,
há um ponto, e nevrálgico...

Uma ave altaneira
há...E uma estrela,
da noite primeira...

Uma era inteira
atrelada a estrela...
Ah! Da noite faceira...

domingo, 12 de janeiro de 2014

No além

Procuro o teu rosto
na minha memória afiada...
Na tua luz cintilada
busco o meu resto...

Respiro o teu gesto,
a tua voz trovonada...
Da maçã dulcificada
procuro o gosto...

Vislumbro o amado:
o firmamento é sidéreo...
Em cavalo alado,

em um tempo etéreo...
O amor, enfim, destilado
em lunático império...

Procuro tua face...

Nas estrelas distantes,
nas águas recuadas...
Nas cartas griladas, 
nos rostos dos passantes...

Nos livros nas estantes,
as teorias conspiradas...
Memórias mumificadas
em todos instantes...

A miragem pra te ver,
ó meu amor, em Abrolhos:
na insolação vem você...

Na hora dos santos óleos,
ah, fosse vosmecê
que fechasse meus olhos...

sábado, 11 de janeiro de 2014

Antônimo de Tempo

Um jubiloso evento,
vem o tempo e afasta...
Que nuvem nefasta,
abominável tempo!

O excesso de vento
pra bem longe arrasta...
Recordação mais casta,
quisera antetempo...

O adeus, pelo avistamento,
A saudade, em toque e tato...
O beijo, em espaço-tempo

compassado, cada fato...
Cada gesto seria bento...
A cada gota, seria grato...

Meu Museu

Os fios da tua lembrança,
do teu rastro, do teu cabelo...
Restou tanto, após perdê-lo,
só não restou esperança...

Recordar um passo de dança,
ater-se em cartas, até num selo...
Que nessas coisas eu posso vê-lo,
no meu museu de desesperança...

Do teu amor imperdível,
juntei todos os cacos,
montando templo intangível

de sonhos, poemas, retratos...
Teu traço, já quase ilegível,
em papéis preciosos, opacos...

Não sei se quero te esquecer

Estas águas movem o moinho,
estes tempos giram catavento...
O crucial grão do provimento,
e para a rosa, o seu espinho...

Uvas perfeitas para o vinho,
e para o pão, bom fermento...
Dar ao poema, o lamento,
e ao ar, seu torvelinho...

Retirar as curvas dum rio,
os namorados, dos mirantes...
Arrancar da vida o brio,

e Quixote, de Cervantes...
Privar dos olhos, o brilho:
do sol, dos diamantes...

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Cartas

Caminhar, pra trás olhando...
Os lírios dos campos lindos...
Celestes azuis infindos...
Águas velhas girando

rodas, que vão gerando
lumes jamais extintos...
Eram doces os vinhos tintos,
e as cartas que iam brotando

de pupilas mui atentas...
As palavras, dos jardins,
colhidas co'as rosas magentas...

As cartas e os secos jasmins,
''inda habitam as minhas gavetas,
junto com uns Pasquins...


Último abraço

Deixei-o partir...
Num momento de insensatez,
o homem de sol na tez,
deixei-o ir...

Deixei-o prosseguir...
O abraço, da última vez,
anunciava o tempo de três
mil anos de embutir

o sentimento do amor...
Amor em seu sentido veraz,
que nos leva a compor

canções lindas de paz...
Deixei fugir o condor:
restou saudade voraz...

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Micaço

Chamava-me de moça,
conhecia os meus passos...
Teus abraços eram aços
fortes, tanta força...

Ele vinha de carroça
repleta de calhamaços:
flores em rubros laços,
ornavam minha palhoça...

Lembrança que me coça:
recordar um março,
foi bom lá na roça...

Mas eu o fiz palhaço,
e vejam só a poça
de mágoas que hoje faço...

Assim sem você...

Cacatua sem nozes,
romantismo sem lua...
Peru sem perua,
coral sem vozes...

Céu sem albatrozes,
uma coisa sem grua...
Infância sem rua,
sem Quebra Nozes...

Sou eu sem você:
cérebro sem razão,
história sem dossiê...

Os pés sem o chão,
perdi vosmecê...
Um dono sem cão

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Foto Antiga

O sono profundo é amigo
de minha saudade...
Igualmente o chocolate
amargo, amigo...

Trabalhar com afinco,
droga pra minha saudade...
A alma menos arde
se o corpo, moído...

Amor em amizade
é o troféu de consolação
de minha saudade...

Mas a foto em oxidação
co'a tua visagem,
inimigo do meu coração!

Mulher-zumbi

A flor ideal pro mel,
a lua cheia pro breu...
Pro beija-flor gineceu,
e azul pro céu...

O dedo pro anel,
que ele me deu...
Da minha mão escorreu,
o meu troféu...

Os olhos pras brumas
que se desfazem no mar...
Vai e vem de espumas,

a me lubridiar...
São oscilantes plumas:
ser, sem estar...

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Odor nas mãos

Amar, antes de perder...
Importar-se co'a flor:
cada pétala, cada cor...
Amar, depois de perder...

O tempo de se arrepender
pena, é maior que o da flor...
Tão fugaz é o tempo do amor...
A eternidade pra não esquecer...

Mui 'special é o lírio
que eu não reguei...
Que gran' martírio!

A flor que eu não cuidei
'inda recende (o lírio),
que eu murchei...

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Lúdico

O beijo de cinema
é meu inimigo...
Nem é meu amigo
o íntimo dilema...

Os ventos de Ipanema
me são um perigo,
me impõe um castigo:
aquele poema...

Não uso mais trema
mas tremo de saudade,
daquela trama...

Ele era divindade,
eu era uma dama...
Dupla cara-metade

Asnice

Aspirar o ar profundamente...
Apreciar a beleza das flores...
Do arco-íris, lindas cores...
Amar, amar simplesmente...

Regar do fruto a semente...
Prezar dos seres, valores...
Motivos há pros louvores...
Amar, amar docemente...

Ó mundo, festa de sentidos...
Contemplar a magnificência
dos teus astros luzidos...

Mas admirar a benemerência
dos que por nós malferidos ,
ah... cerebelo em demência!

Piedade de nós...

Amor passado é dor futura,
amor antigo é dor nova...
A saudade se renova,
cada ano de ruptura...

O sol é luz escura,
a lua é sempre nova...
Feliz só na alcova,
cessar a desventura...

Não viver o presente,
'sperando mor felicidade
que nunca se sente...

Viver da saudade,
o sol no poente...
Tende piedade!


domingo, 5 de janeiro de 2014

Tarde piaste

Era atração incontida
e  doce sentimento...
Era dócil momento
e carícia atrevida...

Era alegre a vida
naquele aposento...
Hoje é mágoa ao vento
e saudade dorida...

Feliz era, mas não sabia...
Era o céu, não percebera...
Era amor, sem alegoria...

Perdeu o doce a pera...
Perdeu a graça a enguia...
Mais formosa a caveira!

Safra especial

Eu me enganei,
e agora é tarde...
A chama já não arde
naquele que rejeitei...

Eu me equivoquei,
sem noção da realidade...
Que viria mais tarde,
nos lenços que encharquei...

O amor no meu destino...
Eu o esbanjei,
tal linho não fino...

Admito que vacilei,
vertendo o vinho,
da safra que mais amei...

Pior castigo

O remorso, que castigo!
Sangria que não estanca...
Lázaro que não se levanta,
Cristo inerte em jazigo...

Como um pão sem trigo,
espinho preso em garganta...
Jesus, com frio, sem manta,
nascido sem abrigo...

Dor que escolta o tempo...
Cicatriz ativa...
Veleiro sem vento...

Dor mais atrevida...
O coração rabugento:
comboio em partida...


sábado, 4 de janeiro de 2014

Leite derramado

Setenta vezes sete,
me perdoe Jesus...
Pois é pesada a cruz
e a cera derrete

ao sol do leste...
A tristeza me conduz
ao destino que propus...
Saudade me acomete,

e eu fui infiel
ao afeto belo...
Eu fui tão cruel,

era de caramelo
o beijo do corcel...
Hoje é flagelo

Sobre depreciar e desapoderar

Errar é compreensível, 
mas os erros abduzem
estrelas que luzem
no azul incrível...

Um ato inteligível,
as faltas traduzem...
As falhas conduzem
a privação horrível,

perder um tesouro...
Nunca mais deparar
co' grato mouro...

Erro mor, não prezar
o valor do ouro,
lançando-o ao mar...

Arrependida

Pudera nascer de novo
pra evolucionar a raça...
Dissipar essa fumaça
que eu mesma promovo...

Pudera romper do ovo
com nova carapaça...
Dessa vez, mais graça,
e bem menos estorvo...

Sonhara então,
renascer em vida...
Sonhara, em vão...

Que é sobrevida
devanear ilusão,
manteiga derretida...

Lamurienta

Choram violas e violões...
Sangram corações arrependidos...
Voltassem os tempos idos,
alinhavando as emoções...

Cantaríamos belas canções
aos entes queridos...
Leríamos versos desprovidos
de tantas lamentações...

Choram violão e viola...
Quem peca, mais que a vítima,
sofre com a perda da joia...

Na respiração última,
livrar-se da dor que devora,
carpindo na pulsação penúltima...


Da utlidade do perdão

Se não retroage o tempo,
o perdão, quase inútil...

Se não é frio o tempo,
o vento, quase inútil...

Se perdoar não é útil,
poema então fútil...

O coração, já sútil...
Perdoar fosse útil!