sábado, 21 de novembro de 2015

Poema da lama

Eu queria lhama

Mas na real, é lama

Eu queria lima,
a laranja

Ou um leme de barco

um lume de luz

um lema,  um livro

Mas me grita o poema;
lama!

À lama...

que muda a cor do rio...

A lama

que soterra os sonhos...

Lama

que respinga nos retratos...

Eu queria uma lama
onde brincam porcos

Mas são Corpos,
emporcalhados de lama!

Quisera eu o barro, moldando
panelas
baianas
jarros
toda sorte de artes...

Mas são malditos barros,
amálgamas de mercúrio e sangue!

O barro: 
início e fim,
a origem e o destino,
base e esteio...
Mais o cheiro bom de barro,
que co'a chuva vem...
O barro do barroco,
o Barros de Manuel,
o barro do joão-de barro...
O anagrama de lama é alma,
dá-lhe poesia!

Mas não, são aflições de berros,
lá vai a lama, já se foi Mariana!
É barro vazada das mãos dum burro,
barril de lama tsunami
barrigas inchadas de radio-
ativos bários,
rubros barros,
bóiam os bagres,
berram os bambinos,
birrenta eu, 

pelos malditos barros,
fundidos de cobiça e lapso!