sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Legado de Ruschi

Não é a bomba atômica
Ou a pomba evaporada

Não é a água esgotenta;
a Terra em Marte silenciada

Não é um olhar triste,
retina rubra da mata 
                        queimada

Não é a lavoura tóxica:
microrazão encefalada

Não, não é céu anil sem ave 
(migrou a clã enganada

Não é arara azul sem nave
(engrenagem avariada)              

O legado de Ruschi
é a infernal/celestial cantoria
(a mata enfestada) 
                           
dos trinca-ferro,
(o legado de Ruschi),
suas taquara-rachada!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

O Ruschi era bom

Um homem é bom
quando respeita o tempo

O tempo do próximo,
ou digo o vento...
               
Se se angustia ao
alheio contratempo,

humano bom...

Bom é o sujeito,
se pisa com jeito

o solo da formiga
a portar mantimento...

Um homem é bom,
sua mão ferramenta:

fermenta o pão essa mão,
co'o mais puro do grão...

O homem é bom
quando ele dá água

à aguia sedenta,
e ao sabiá-pimenta...

Um homem é bom
quando ele fomenta

A idéia de ser a Nave,
de todo que a frequenta...
  
Arca da avó, da ave.
E da jumenta.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Eu quero ser Ruschi

Quero ser Ruschi!

Quero andar na floresta
Eu quero festa

de colibri na janela
aberta fresta

O vento, o sol,
'dentrando casa...

Eu quero asa
Eu quero esta

manhã com maçã
sem medo e veneno...

Rouxinol e atol,
colorido ameno

Usar andiroba
-ao invés do benzeno

(quero ser Ruschi)

Ambiente e gente,
jaz a combustão

Quão simples a arte,
viver sem canhão

Comeu papagaio
girassol, em minha 
                     mão

Quero ser Ruschi!

Andar na mata
sob prata lua

Semente intacta
cantou cacatua

Rompeu aguerrida
margarida


na relva,
na rua...

Orquídeas e Ruschi

Oh...Orquídeas!

Alvas, não manchadas;
de paletas embaralhadas...

Ilustres, em orquidários
Ou saudosas -obituários

As de matizes exóticas,
dum verde-abacate...

De amora-escarlate,
as não estrambóticas...

Oh...Orquídeas!

Suas cores caras;
nem tão raras carraras...

As de pencas parrudas;
as tão solitárias...

Oh... Orquídea!
Oh...Venustídea!
 
Mina virgem,
em bromélia ocultada...

Afoita mulher,
por colibri polinizada...

Oh, orquídea!

O poeta a vê lascívia,
o Ruschi a vê materna...

O mercador a vê artigo;
o Ruschi a vê tão terna...

Orquídea-ser-vivo,
quase humana, boa...

O Ruschi a velara,
flama eterna ressoa...

Oh, orquídeas,
oh, orquídeas!

As alvas, as não manchadas...
Ou as de paletas
                         embaralhadas...

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O que um homem pode ser

Um homem pode ser uva-
passa. Passa uva ruim
-no rum não passa

Um homem pode penumbra
ser sombra de alguém
-duma rosa Holambra

Um homem pode ser 
um lobisomem, eterna
fera: o homem

Mas pode ser o Sapiens
carvalho, ou orvalho que o
rega. O Ruschi o era.




domingo, 3 de julho de 2016

Do bem

Eu não vi o Ruschi
sojarando mata

Eu não vi o Ruschi
jacarezando couro

Eu não vi o Ruschi
açucarando nata

O Ruschi eu não vi
aliciando ouro

sexta-feira, 15 de abril de 2016

As garrafinhas de água e açúcar

A quem alimenta um bichano,
chamo-lhe "humano"

Pra quem tem pássaros na janela,
a vida é bela...

Açúcar cristal nágua:
dócil colibri

Enche a pancinha 
e baila

(corpinho rubi)

São garrafinhas dágua,
glicose, e aí...

Colibris dançantes
daqui, dali...

De Ruschi a idéia fora
-descobri!

terça-feira, 12 de abril de 2016

Meu voo raso



Não, não saberei poemar
o Ruschi, não ousarei...

Porque não sei o nome das flores,
e o colibri, quais mesmo cores?

Não, não saberei poemar
-não este pomar

O augusto Ruschi,
o Ruschi augusto,

cada riacho,
cada uva no cacho..

Cada mata, sua cascata,
cada lago, sua lua de prata...

Rodeava-se de bichos,
rugiam alto, nos nichos...

Tudo lindo, a Natureza
Junção: homem e Alteza... 

As cidades, seus ipês...
Águas claras, fluidez...

Consumismo? Pouquinho...
Valia mais, colibrizin' no ninho... 

O tempo, em que a
sustentabilidade rompeu...

Como um girassol,
dum gineceu...

Flutuavam as asinhas
no ar...

Alga esmeralda, 
rubi do mar... 

O mundo de Ruschi:
pra se deslumbrar!

Não, não saberei poemar
o Ruschi...

Pois o augusto,
pois o arbusto...

Vereda das alamedas,
seus bichos-da-seda... 

Não, não saberei poemar
a leveza...

Sutileza de tons: 
brincos-de-princesa...

terça-feira, 5 de abril de 2016

Passos de Ruschi


Plácidos passos:
não espavorir pássaros...

Passos profundos:
covas donde fecundos...

Néctares oriundos
flores fluorescem...

Aranhas sem medo
a seu modo tecem...

Passos complacentes,
co'o dourado-mico...

Amigos humanais
pasmem, coabitam!

Passos, passos,
sob viço de relva...

Passos passam,
sob a tenra terra...

Lentos eles passam,
desapressados...

No encalço dos nichos:
os mais lesados



segunda-feira, 4 de abril de 2016

Augusto aqui

Eu vejo o Augusto,
no colibri dançante...

Eu vejo o Ruschi:
a paz de cada semblante...

Eu vejo este Homem,
sagui salvo perante...

Eu vejo o Augusto,
vejo-o, vigilante:

ante do mar a alga,
fotossintetizante

Glorioso Augusto

Eu gosto do Augusto,
o que rega gerânio...

Beija-flor desgaiola,
tão gesto elegante...

Do Augusto eu gosto,
teu nome, germânio?

Vai grassando o jiló...
Teu vestígio, gigante!



Augusto augusto

Sobre quem o amor,
sobre o beija-flor...

Sobre quem as florestas,
lhe brindaram serestas,

co' rouxinóis-da-
floresta...

Sobre quem a natureza,
recendeu pureza:

os jasmim-de-veneza
ou de-santa-teresa...

Sobre quem,
a tua guarida nata:

da avezinha frágil,
da mata e cascata...

Sobre quem, 
sobre quem

Imprimira o preito,
duma intacta biosfera...

O que bradara por água:
fosse cristal em cisterna...

Rondou-o vaga-lume,
que candeia mais terna!

Sobre quem,
sobre quem...

O colibrizinho velando-o, 
eterna, eterna...

segunda-feira, 28 de março de 2016

Poemas sobre AS PANELEIRAS DO BAIRRO DE GOIABEIRAS

Quem quiser ler os poemas das Paneleiras de Goiabeiras, deve acessar o arquivo do mês de fevereiro e março de 2016. Grata.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Visitar o Galpão

Visitar o Galpão,
visitar o templo...

Uma Capela Sistina;
um Louvre contemplo...

O esmeralda dos mares,
eis o espaço-tempo

de visitar o Galpão,
meu melhor passatempo...

O tempo dá a rima,
e eu me contento

ter fruído a beleza:
que Rodim portento!

Barro Bom

Panela boa é de barro
Um alumínio é bizarro

Panela boa é de barro
De alumínio é Alzheimer

De cobre até que bonita
Mas o metal parasita

Tem fama a panela
amarela

Mas o abuso de ferro
diarréia

A antiaderente
é plástico

Precisa-se estômago-
elástico

Inox ali eu não 
como

Distúrbios de níquel,
cromo

Panela boa é de barro
Água gostosa no jarro

Panela boa, de barro
De boa joão, de-barro...

Panela boa é de barro...

quinta-feira, 10 de março de 2016

Exaustão do Barro

Amigo leitor; amiga minha,
que triste a vida, a nossa sina!

Mais trinta anos, e o bom barro:
nadica de nada, nenhum jarro!

Assim como a neve na Sibéria,
se esvai a chita, na Nigéria...

Sublimando águas cor cristal...
Haurindo-se minas, do pré-sal...

A argila do Vale do Mulembá
breve futuro, e restará...

Saudades da panela, que 
harmoniza a moqueca...

A panqueca sem graça,
e o café sem caneca...

Ressonando mal, sigo eu,
ó Roma e Romeu,

pós matéria da Gazeta
do pintassilgo-europeu...

A "poetisa" por ali e aqui 
vem brincando...

(averiguar se o leitor,
atenção me dando)

O poema enredando
o sério problema...

Deus meu, finda o barro,
e aí desengrena:

cultura, tradição, sabor
e emprego...

Apocalíptico tempo,
que desassossego!

Panelas de Goiabeiras,
em quase extinção..

Lacerado sangra
o meu coração!


quarta-feira, 9 de março de 2016

Paneleiras do Brasil

Permita-me, 
ó Paneleiras de Goiabeiras,
mas as outras Gameleiras...

Sem certificado de IPHAN,
sem selo de procedência,
nem divina providência...

Pelo Brasil afora,
Paneleiras fora da mídia,
Paneleiras sem memória...

São confrarias,
são opacas estrelas,
sem curadorias...

Toda Paneleira mais-valia,
mais alta afeição...

Mereceriam, Penha e Maria,
nas redes, virilização..

Apoio governamental,
turismo, cunho cultural...

Agregar valor, suporte,
pois portentoso o pote!

Toda Paneleira, toda guerreira...

Paneleiras carentes,
em olvidados quilombos...

Seus congos deslembrados,
desdenhados pelo povo...

São tradições de cultura,
são raízes que ventura,

nos representam genuínas:
as Louceiras do Maruanum;
ou d'alguma Minas...

segunda-feira, 7 de março de 2016

Manifestações culturais

Sobre a panela,
e seu entorno...

Quem a modela,
dançando Congo...

O que a panela,
remete ela:

os "bocudo" bravo,
co' tanino tingindo,

gamela bela...

Sobre a panela,
sua sublimidade:

resiste o folclore
na comunidade...

Goiabeiras antiga,
onde se atina

cada Penha pelo nome
e Anchieta prenome...

Tambores rufam,
os dias, festivos:

na fogueira panelas
sob cantos nativos...

A panela e seu entorno

Saindo quentinha,
a torta do forno...

Festa de Reis,
meu-boi-bumbá...

Feliz quem se encharca,
no Mulembá!

domingo, 6 de março de 2016

Atividade Sustentável

Porque colhem,
a não totalidade...

Porque usufruem,
mas só a metade...

Queimam a madeira,
mas 'tava' no lixo...

No próximo pensam
(isentos do luxo)

Retirando o barro,
vão no cuidado...

Se extraem o tanino, 
deixam o girino...

Mútuo respeito,
e ao Estado do Amém...

São extrativistas,
sabedores tão bem...

que as garças só voam
se o mangue tem:

limpidez de água,
peixe, crustáceo...

Limitada Terra,
irrisório espaço!

Zelando hoje,
ter-se-á amanhã...

Moqueca e Panela
-condimentei hortelã

sábado, 5 de março de 2016

Do barro tu vieste- inspirado em Fernando Pessoa

Elas que arrancam panelas do barro
Mesmo barro que moldaram Elas...
Não sei se Elas é que modelam o barro    
Ou se o barro, que a Elas modelam...            

sexta-feira, 4 de março de 2016

Poesia na Panela

A Panela e sua estética
Não rimaria estática

Negra
-lua novinha

Pesada
-moqueca levinha

Sem dendê
-com pavê

a sobremesa
-seria de que?

A Panela que remete,
à reunião da família

Domingo é festa,
do Mel é a Ilha

Eu filha tivesse,
uma Penha seria...

Panela, Tigela:
os verde-canela 

Vix Vila Velha
Jurema Curvilínea

Poema sem métrica
eu não romaria

Ensinou Anchieta
o ofício a Maria

A Panela e sua estética,
apoteótica vasilha!

quinta-feira, 3 de março de 2016

Capixabíssima

Poema leve
Pesada panela

Tigela singela
tão nobre ela

Gamela que reflete
montanha e mar

Moqueca de banana
fidalgo manjar

Panela pesada
Poema leve

Lava a alma:
malagueta leva

Une família
Tradição Una

Decora Itaúna
Adorna Piúma

Poema Panela
leve     pesada

Legítima arte
Restolho, peixada

quarta-feira, 2 de março de 2016

Ser bem-agradecido

Que desassossego,
das Paneleiras!
Fosse eu, já
perdido estribeiras!

Estas faceiras,
lá de Goiabeiras...
Co'a mão no limo,
mas bem munidas,

polidas maneiras...
Ante as corriqueiras
pesquisas científicas,
as panelas magníficas,

à exaustão inquiridas!
Já devassaram
o fluxograma delas...
Já averiguaram,

a química d'argila...
Anagrama da lama
já foi conferida...
E manteiga derretida,

modus calcinação...
É batalhão todo 
dia bisbilhotando
o Galpão!

Zilhão de
questionários 
Suas fleumas,
testando...

O social o global 
e o capital esmiuçando...
O garbo da louça palacial
lhe delirando...

Todo tipo de questão 
epistemológica...
Não retornando ao Galpão, 
numa réplica lógica...

A toda sorte de
cientista, 
pede o poema 
(inclui turista),

após amolação
o da pós graduação
rápido e rasteiro
seja o forasteiro,

a dar seu ar:  
gratidão!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Herança ou mudança?

As Paneleirinhas, as gurizinhas...
Artesãs já são, essas meninas...

Já modelam,
co'as femininas mãos finas,
as tigelinhas,
e são assim, bem feitinhas...

Mas as meninas
(qual teu sotaque, mocinha?)

sabem não 'inda,
qual profissão lhes destinam...

Cruel decisão:
escritório ou Galpão?
Consultório? Ateliê da mãezinha?

Se seguem ou não,
a tradição...
Se no mesmo caminho;
outra trilha...

As Paneleirinhas, 'studando
'stão, hoje em dia...
O que sonharão? Co'a moldagem bonita?
Ou co'a diplomação, uma engenharia?

De acordo atual
mundi historiografia,
se mudável tudo...
Qual futuro do barro,
qual etnografia?

As paneleirinhas, artesãs estão
(já falam inglês, essas meninas)


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Almas gêmeas

Panela e moqueca
Moqueca e panela

Não vive ela
sem ostra

E a outra, 
atrelada a pérola...

Música aquela:
a carne, a unha

Metades da fruta,
findando numa...

Panela e moqueca
Eu e a terra sueca,

italiana, alemã
polaca; toda Meca...

Moqueca e panela,
chamariz de turista

Suíça e Brasília,
dedos e ametista...

Moqueca e Panela
Robalo e argila

Molhando a goela,
dilatando pupila...

Lama e Peixe
complementando-se

vão...Ateliê e cozinha,
deuses em criação! 

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Zelar pelo Galpão

O poema pede:
que se regue as rosas...
Que se calce as ruas
com nativas rochas ...

O poema pede placa,
ela seja de pedra...
Da preta, a pedra,
da cor da Panela...

O poema pede Galpão
dantesco, luzente...
Donde a Paneleira
labutará contente...

Vem pedindo cuidar,
de quem se ama...
Aqui soltam fogos,
depois se abandona...

Pedindo apenas
a mão d'um amigo...
Amigo vivo,
não um jazigo...

O poema pede
o acordar da nação:
uno saber do barro,
deste rincão!